POR QUE LEIO E RELEIO, OS CLÁSSICOS RUSSOS?

POR QUE LEIO E RELEIO, OS CLÁSSICOS RUSSOS?

Por Amélia Alves –


        Não se tem a pretensão audaciosa de fazer crítica literária aqui ou falar de todos os escritores russos; obviamente tenho meus eleitos e vou me fixar em um, com destaque especial na minha estante: o escritor e jogador contumaz, Fiódor Dostoiévski. Que lia Nikolai Gogol e afirmou, certa ocasião, terem saído os escritores russos, de seu capote. Numa alusão ao título de sua obra mais conhecida: O Capote – uma leitura, diga-se, que se soma àquelas em que volta e meia temos nas mãos, mais uma vez. Como o próprio Fiódor, os contos de Tchekhov, ou Vidas Secas, do Graciliano Ramos ou A Metamorfose, de Kafka ou Pedro Páramo, de Juan Rulfo, As Vinhas da Ira e Homens e Ratos, de Steinbeck, ou…

No seu tempo e ambiente histórico, Dostoiévski escreveu sobre o homem em ebulição – tensão e tremores no chão dos Czares. Tensões que culminariam na primeira metade do século XX, com a Revolução Russa de 1917. Aliás, no monólogo “Notas do Subsolo” também traduzida por “Memórias do Subsolo,” é possível apreender toda esta paisagem e as críticas de profundidade contundente à intelligentsia do período, no seu – até então que se saiba – único projeto filosófico. Vale e muito, ler, reler… [tenho em edição da Editora 34, com tradução de Boris Schnaiderman. Fácil de encontrar].
O filósofo alemão – Nietzsche, leu e releu as obras de Dostoiévski, mergulhando na construção dos personagens, sorvendo a mestria com que o autor retratou as luzes e, notadamente, as sombras da alma humana, em cada um. Neste ponto quero fazer justiça à Turguêniév, autor, entre outras obras, de “Pais e Filhos”, como precursor do niilismo na literatura russa, com o protagonista Bazárov; isentas, portanto, do tema da religiosidade, recorrente em Dostoiévski. e outros, a exemplo de Tolstói. O escritor Turguêniév foi igualmente inspirador digamos, aos estudos filosóficos de Nietzsche mesmo que de maneira transversal. “Memórias do Subsolo”, “Irmãos Karamázov” com Ivan – o personagem niilista e seu monumental A lenda do grande inquisidor, e “Crime e Castigo” com o assassino Raskolnikov – que acreditava no utilitarismo do seu gesto, mas sofreu profundamente e ao fim se ‘acovardou’, nas palavras de um crítico literário foram, sem dúvida, muito caros ao filósofo.
Sigmund Freud, o psicanalista, além do interesse na mitologia grega, lia Dostoiévski e, em particular, teria se emocionado com “Humilhados e Ofendidos”, mas se assombrado, definitivamente, com “Memórias do Subsolo”. Freud acompanhou com seu olhar clínico, se debruçou na análise sobre as reentrâncias – os escuros, os inaudíveis e indizíveis da alma, expressadas nos personagens dostoiévskianos.
No entender de Virgínia Woolf, os romances de Dostoiévski são “trombas d’água que assobiam e fervilham e nos sugam para dentro.” Ao contrário do realismo que pouco preza pela vocalidade da essência humana, apesar das obras que simplesmente não existe não ler – o próprio Vidas Secas e O Som e Fúria de Faulkner, por exemplo.
Albert Camus – escritor e filósofo, da mesma forma estudioso da mitologia grega e leitor voraz de Dostoiévski – e poderia não ser? Resumiu assim, o homem absurdo, em O Mito de Sísifo: “…é preciso imaginar Sísifo, feliz”, ponto. Sim, é preciso, é o que nos redimi. E Nietzsche diz, no capítulo sobre a Virtude em Além do Bem e do Mal, que: “…talvez, mesmo que nada de hoje tenha futuro, precisamente nosso riso, ainda o tenha”. Ambos, nos remete a Bazárov de Pais e Filhos, a Ivan, Raskolnikov…, ficando apenas nestes, por ora. O mesmo ocorre com obras de Shakespeare, especialmente Hamlet e Macbeth. Enfim, é muito interessante quando percebemos, ‘damos de cara’, com narrativas e personagens que nos remetem aos clássicos, notadamente e neste caso, falamos da literatura russa.
Ler os russos, para mim, será sempre um mergulho na alma humana e seus demônios e os conceitos ocidentais de moral, ética, religiosidade. Nos desestrutura e nos deixa a deriva. Afinal, a literatura, a arte, tem este poder de nos jogar no olho do furacão e nos resgatar, de preferência de ponta cabeça, não? E para você, qual a obra literária e autor que te faz retornar ao livro lido e relido, mas que ainda será? Confesso minha curiosidade.

 


 

 

Amélia Alves

Escritora, mestre em História pela UFMT e doutora pela Facul. De Letras da Univ. do Porto, PT; mentora e implantadora do projeto Siminia da prefeitura de Cuiabá (1997); promotora cultural – idealizadora da FLIC – Festa Literária de Chapada dos Guimarães; diretora do IESC – Inst.de Estudos Socioculturais de Chapada dos Guimarães.

Publicações: “Uma Devassa nas minas”, “Domingos Angola e Joaquina Mina”, “Memórias Kilombolas” e o livro de contos “Pedro Canoeiro”, editado no Brasil e Portugal. Em preparação para publicação em história: “Leis abolicionistas: “Fraude, má fé e abandono” e na literatura: “Dias autênticos” – Prosas.

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