Ruídos da Humanidade

Ruídos da Humanidade

Por Amélia Alves

Assistindo a uma entrevista com o editor de uma pequena editora brasileira, especializada na reedição de clássicos da literatura universal, ouvi-o proferir uma frase simples que resumiu, em poucas palavras e tão apropriadamente, o que guarda uma biblioteca. Ele disse: “ruídos da humanidade.” Vou me lembrar sempre, desta definição.

O que encontramos, em todas as obras literárias senão ruídos, da humanidade? Um escritor, é aquele que os capta, em meio a névoas oscilantes – que podem ser traduzidas por experiências vividas ou informadas, gostos e aromas desencadeando memórias – de cenas, lugares, falas, sensações, juízos… E se vê impelido a decodifica-los: o que, porque, quanto e como, inseridos em seus a priores, regem o seu mundo; em qual nível de intensidade e desde quando. Quem, se não Proust, melhor nos provoca a resgatar, estas percepções?

A Metamorfose, de Franz Kafka, por exemplo, e o lugar, o tempo e modo de vida de uma família de classe média baixa e seus valores; o filho se repetindo e morrendo, para cumprir o que dele era esperado. Sua vidinha medíocre, sufocada pelas exigências e imutabilidade. O inseto e as respostas, o movimento diário, até a banalidade.

Em Carta ao pai, o autor nos mostra quando, porque, quanto e como, sua relação afetiva com o pai autoritário e distante, escreveu suas obras mais poderosas.

E quando a história, subsidia a literatura? O escritor angolano Pepetela, herdeiro da ocupação portuguesa no sul de Angola no século XIX e figura de destaque na luta pela independência de 1975, transformou em romances as várias etapas desta saga africana, por experiências vividas e informadas. Desde o mito, ou não, da fundação do país em Lueji, o nascimento de um império, até a revolução de 1975 – em Mayombe. E continua a contar como, para ele, estes ruídos soam.

Ricardo Guilherme Dicke em Cerimônias do sertão, diferentemente de Manoel de Barros, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos ou de meus contos ou os de Santiago Santos, traduziu como, para ele, tudo ali tinha significados, particulares. Muitos outros poderíamos trazer, mas fica por sua conta, o livro que lhe vem à mente agora e tenha provocado outros ruídos, os seus. Este desconforto, esta metamorfose, é o que acaba por provocar a arte, a literatura.


Amélia Alves

Escritora, mestre em História pela UFMT e doutora pela Facul. De Letras da Univ. do Porto, PT; mentora e implantadora do projeto Siminia da prefeitura de Cuiabá (1997); promotora cultural – idealizadora da FLIC – Festa Literária de Chapada dos Guimarães; diretora do IESC – Inst.de Estudos Socioculturais de Chapada dos Guimarães.

Publicações: “Uma Devassa nas minas”, “Domingos Angola e Joaquina Mina”, “Memórias Kilombolas” e o livro de contos “Pedro Canoeiro”, Pedro Canoeiro editado no Brasil, pela Patuá e em Portugal pela Chiado. Em preparação para publicação em história: “Leis abolicionistas: “Fraude, má fé e abandono” e na literatura, o livro de Prosas “RUMOR DE LOBOS”, saindo em junho, pela Editora Patuá.

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